BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos, Persian, English, Sexo, Dinheiro


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O que é isto?
Caixa Preta


Caixa Preta agora no portal Rock Press

O aviso já deveria ter sido feito há muito, muito tempo. Na verdade, há 1 ano, quando aconteceu o último post por aqui. Mas antes tarde do que nunca: o blog Caixa Preta, que permaneceu ativo quase 2 anos aqui no UOL, está agora no portal de música ROCK PRESS.

Por absoluta falta de tempo, não tem sido possível manter esse blog atualizado. Em compensação, em rockpress.com.br, além de republicações de textos escritos originalmente para este blog, há também matérias novas e coberturas de shows, publicadas sempre na seção "Gritos"

Em tempo: algumas entrevistas e matérias históricas publicadas por este escriba na pioneira revista de rock alternativo 100 Tribos, entre 1994 e 1996, sairão do arquivo e estarão disponíveis para leitura também no site da ROCK PRESS.
Entre os quitutes, entrevista com o ícone do punk americano Ian MacKaye (Minor Threat/Fugazi), biografia de Frank Zappa e muito mais.

Vejo vocês por lá: http://www.rockpress.com.br

 Escrito por Mr Eddy às 20h13
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There’s no business like show business

O Rei da Comédia
(The King of Comedy/1983)
Direção: Martin Scorsese • Com: Robert De Niro (Rupert Pupkin), Jerry Lewis (Jerry Langford), Diahnne Abbott (Rita Keane), Sandra Bernhard (Masha), etc



A filmografia de Martin Scorsese é a mais brilhante do cinema americano nos últimos 30 anos. E isso não é pouco. De seu filme de estréia, o chauvinista e experimental “Quem Bate à Minha Porta?”, com Harvey Keitel, até seu mais recente e ambicioso “O Aviador”, há pouquíssimos deslizes. Alguns temas são recorrentes em sua obra, como os códigos de conduta de ‘wise guys’, a gênese da América tal qual a conhecemos e, num nível mais sutil, a deterioração de famílias e casamentos. Mas não é necessária uma análise muito profunda da obra de Scorsese para perceber que, em meio aos temas pelo quais seu cinema ficou conhecido, há também filmes absolutamente únicos e, infelizmente, menos conhecidos. É o caso do excelente “Alice Não Mora Mais Aqui”, libelo feminista perdido numa coleção de filmes de macho e que traz um dos momentos mais inspirados da carreira da ótima Ellen Burstyn. Mas é provável que o exemplar mais curioso assinado por Scorsese em sua prolífica parceria com Robert De Niro – e também o menos visto – seja o obscuro “O Rei da Comédia”.

Absolutamente irretocável e à frente de seu tempo, o filme, que traz ainda um perfeito e já veterano Jerry Lewis, radiografa vários temas pertinentes ao show business e talvez faça mais sentido hoje do que na época de seu lançamento. Com o culto à celebridade ultrapassando qualquer limite minimamente razoável e a TV se pretendendo um espelho do homem comum via shows de realidade, “O Rei da Comédia” mostra o quão ridículo, melancólico e obsessivo pode se tornar o sonho da fama.

Rupert Pupkin (De Niro) é um aspirante a artista de 'stand up comedy' que tem como modelo de sucesso o também humorista e âncora de programa de entrevistas Jerry Langford (Lewis). Em sua busca descontrolada pelo sucesso, ele assedia o bem-sucedido apresentador para tentar arrancar dele uma chance de mostrar suas supostas habilidades humorísticas na TV. Rupert é um dos personagens mais complexos já interpretados por Robert De Niro e um de seus maiores feitos como ator. A atuação excepcional ajuda a dinamitar a idéia de que De Niro estaria preso a certo tipo personagem e não seria assim tão versátil. Além do mais, o trabalho do ator é bastante corajoso, pois Pupkin é um tipinho tão despido de amor próprio que constrange o mais indiferente espectador. Suas tentativas de se aproximar do hermético Langford e sua capacidade de ser desagradável e sem noção do ridículo remetem àquele tipo de vergonha que sentimos por atitudes alheias (e que às vezes são piores que a vergonha por nossas próprias mancadas). Pupkin também preserva um quê de Travis Bickle - personagem de De Niro em "Taxi Driver" -, ou seja, um novaiorquino solitário e perigoso, mas que, ao contrário do motorista de táxi, arma um plano que mais se assemalha a Andy Kauffman.

Da mesma forma, é também embaraçosa – e assustadora – a obsessão das tietes de Jerry Langford, uma das quais amiga e futura comparsa de Rupert (Masha, interpretada com louvor por Sandra Bernhard). Ela faz parte daquele tipo de gente que abdica de qualquer vínculo com a vida real para sonhar com o ídolo de luz e raios catódicos da TV.

“O Rei da Comédia” tem momentos realmente hilariantes, como os delírios de grandeza de Rupert ou seus ensaios solitários com displays de papelão, mas, na média, o que prevalece é o humor negro e um clima de absoluta hostilidade, cujo maior alvo é o próprio mundo do show business.
Outra tacada de mestre de Scorsese é segurar até o final o tipo de esquete de humor que Pupkin pretendia apresentar a Langford como demonstração de seu talento. A capacidade do comediante como ‘entertainer’ permanece sempre em segundo plano, ofuscada pela sua corrida descontrolada por um lugar nos holofotes. E o azedume do personagem de Jerry Lewis – em exuberante interpretação – diz muito sobre o que ele próprio, como showman e produtor, aprontou em seus anos em Hollywood.

Até pouco tempo inédita em qualquer formato no Brasil – não tinha saído sequer em VHS –, essa gema perdida da carreira de Martin Scorsese foi resgatada para DVD pela Fox sem grande estardalhaço e, até por isso, não é achada facilmente nas videolocadoras. Mas (re)descobrir um filme desse quilate deve ser motivação suficiente para tirar qualquer cinéfilo de casa…




 Escrito por Mr Eddy às 05h56
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Dennis "Piggy" D'Amour
1959-2005

Faleceu há uma semana o guitarrista da inovadora banda canadense Voivod. Dennis D'Amour, ou Piggy, como era mais conhecido, forjou uma sonoridade única ao longo de seus 20 anos de carreira, indo dos riffs pesados e dissonantes até solos belíssimos e texturas estranhas. Sua criatividade fez do Voivod banda ímpar e que, se não emplacou sucessos comerciais, ganhou, por outro lado, o status de "cult" e "influente". A admiração de membros de grupos como Soundgarden, Dead Kennedys, Pantera, Pearl Jam, Foo Fighters, Sonic Youth e muitos outros, são uma pequena amostra do trabalho notável desse músico e seus comparsas de Quebec.

Nenhum guitarrista fez coisa parecida. Há outros mais rápidos ou técnicos, mas Piggy criou um estilo que reside num universo próprio. O Voivod, fundado por ele, Away (bateria), Snake (voz) e Blacky (baixo) na metade dos 80's, sofreu por parecer sempre à frente do tempo.

Em seu primeiro disco, "War and Pain", o Voivod apresentou uma mistura estranha de punk e thrash, tocando num volume à la Motorhead. Esse álbum, me disse certa vez um amigo, era o "Nevermind the Bollocks" do Voivod. A inconseqüência juvenil estava toda lá e reapareceu, inclusive, no trabalho seguinte, o caótico e cyber-punk "Roooaaarrrr". Daí por diante, a banda, movida por uma vontade incontrolável de inovar, surgia a cada novo álbum com letras, idéias e conceitos musicais que deixavam seus pares parecendo artistas da Idade Média.

Em 87, foram para a Alemanha e gravaram "Killing Technology", um disco semi-conceitual e que já discutia o avanço louco da tecnologia e suas conseqüências. Um ano depois, reapareceram com a obra-prima "Dimension Hätross" que, se ainda cabia na definição convencional de (thrash) metal, então já podia ser considerado o melhor álbum do gênero. O Voivod sempre pirou em teorias científicas, discos voadores, conspirações e caos. Mas, de alguma forma, esses canadenses conseguiram mais do que apenas produzir música inspirada no futuro e na ficção científica: o Voivod era sci-fi! E grande parte dessa estranheza tão única sempre esteve ligada à guitarra de Piggy. O cara que criou dezenas de riffs complexos e totalmente fora dos padrões, também era responsável por inventar climas atmosféricos que davam ao Voivod toda essa aura "espacial" e "futurista".

Após "Nothingface", de 1989, disco que muitos têm como a obra mais impenetrável e original da banda, o Voivod teve sua chance de sair de um gueto onde era Deus. Assinaram contrato com a 'major' MCA -- gravadora que alguns críticos apelidaram de Musical Cemetery of America, graças à sua capacidade de enterrar carreiras -- e lançaram seu álbum mais pop e mais prog: "Angel Rat". É nesse disco que estão registradas algumas das gravações mais belas de Piggy. Músicas como "Freedoom", "None of the Above" e a faixa-título merecem lugar no CD player de qualquer aspirante a guitarrista, tal o grau de classe e inventividade. Mesmo assim, o Voivod quebrou a cara na MCA. Em tempos de grunge, ninguém queria saber das viagens de 4 canadenses que só falavam inglês nas letras de músicas. Para piorar, o baixista Blacky largou a banda após uma briga pela intromissão do produtor Terry Brown, que, segundo o músico, eliminou canais de distorção de seu instrumento e enfiou teclados contra a vontade da banda. Tudo pra deixá-los "mais pop". Para o bem ou para o mal, o disco foi um fiasco comercial, porém brilhante artisticamente. O Voivod, de farol baixo e desfalcado de Blacky, cumpriu contrato com a MCA e ainda lançou outro belo trabalho, "The Outer Limits".

Daí pra frente, a banda passou por períodos nebulosos, especialmente com a saída do carismático vocalista Snake, que foi morar no mato e se entupir de drogas com a namorada. Mas Piggy e seu "soul brother" Away nunca desistiram. Gravaram 2 discos pouco comentados com um outro músico, Eric Forest, e só viriam a renascer, de fato, em 2003, quando Snake ressuscitou de seu inferno particular e foram apadrinhados pelo ex-Metallica Jason Newsted. Com Jason no time, gravaram "Voivod", seu décimo álbum de estúdio e que recolocou a banda no mapa. Uma sonoridade meio garage somada a letras pessoais e um tanto politizadas, deram ao disco um clima meio pé no chão. Snake revelou que a banda sempre foi considerada à frente do tempo e que falar do avanço irresponsável da tecnologia ou de um futuro hi-tech, soaria ironicamente retrô em 2003.

Piggy, que durante as vacas magras fez bicos trabalhando na produção de espetáculos teatrais em Montreal, agora podia dedicar-se de corpo e alma ao que melhor sabia fazer: tocar sua guitarra. Mas um câncer no cólon tirou esse músico inovador de cena. Seu funeral teve presença de todos os integrantes atuais e passados do Voivod e, a pedido da família, vários fãs compareceram usando camisetas da banda. A guitarra de Piggy foi cremada a pedido de Snake, enquanto os fãs do grupo gritavam "Voivod". Seus familiares garantem que era o tipo de despedida que ele certamente teria aprovado.

Com um novo disco praticamente pronto e produzido por Glenn Robinson, o mago que assinou "Nothingface", Piggy não verá sua última performance materializada. À essas alturas, ele estará fazendo uma jam no espaço que sempre o inspirou.



 Escrito por Mr Eddy às 20h34
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O drama enfadonho da mulher portenha

A Menina Santa
(La Niña Santa/2005)
Direção: Lucrecia Martel
Com: María Alché (Amalia), Mercedes Morán (Helena), Carlos Belloso (Dr. Jano), Alejandro Urdapilleta (Freddy), Julieta Zylberberg (Josefina), etc.



Certa vez, numa conversa de bar, ouvi a teoria de que deve existir algum gene responsável pela chatice. Foi a única “explicação” encontrada para definir o mal que atinge aquelas pessoas cuja única função na Terra parece ser a de aborrecer o semelhante.

O segundo longa da argentina Lucrecia Martel – o primeiro foi “O Pântano” – chegou ao Brasil precedido de críticas extremamente favoráveis, a grife Almodóvar na produção e uma coleção de prêmios a tiracolo. Nada disso, porém, evitou que o filme reabrisse a velha discussão sobre a origem da chatice. Se aqui não há gene para levar a culpa, é possível então que caiba ao ritmo arrastado, ao número de personagens supérfluos e às boas situações desperdiçadas, uma boa parcela da explicação.

“A Menina Santa” narra as desventuras de duas "aborrecentes", um médico dado a encoxar mocinhas e uma divorciada em busca de marido. Quase tudo acontece dentro de um hotel que não parece hotel, durante convenção de otorrinolaringologistas. Helena (Mercedes Morán) é proprietária do lugar e mãe de Amalia (María Alche). Ela é divorciada e ressentida que seu ex-marido, Manuel, não tenha lhe contado pessoalmente que vai ser pai de gêmeos. Sua filha, Amalia, frequenta aulas de religião e, ao lado da melhor amiga, Josefina (Julieta Zylberberg), anda com os hormônios em ebulição. Dr. Jano (Carlos Belloso) é um dos membros mais comedidos de uma equipe médica que se refestela com drinks, cigarros e assédio à mulherada (melhor não ficar doente na Argentina). Ainda assim, Jano não perde a oportunidade de encoxar uma jovem que assiste a um artista tocando theremin para os transeuntes. Acontece que Helena fica caidinha por Jano. E acontece que a mocinha que ele molesta é Amalia. Triângulo “amoroso” impensável.

Se a premissa é interessante, a execução justifica a busca por uma explicação para a chatice reinante. “A Menina Santa” tem cenas aparentemente sem função e personagens supérfluos que apenas distraem a atenção do espectador (Mirta, Freddy, etc). Em momento algum fica evidente tensão sexual entre Helena e Jano. Ainda que a mulher desajeitadamente tente, o médico, que é casado, parece apenas insinuar interesse. Talvez ele se excite apenas com pequenas aventuras proibidas. No núcleo "aborrecente", Amalia e Josefina trocam o que deveriam ser confidências juvenis, mas tudo é confuso e sem foco. Em teoria, as duas procuram explicações para a tal "missão" que a (bela) professora de religião insiste em mencionar. O que poderia funcionar como crítica ao adestramento jovem via catolicismo torna-se uma enfadonha seqüência de cenas mal aproveitadas, culminando com um possivelmente único bom momento no qual Josefina, para forjar um álibi, põe em xeque a carreira e a família de Jano. Fim.

Isso mesmo: o filme termina antes de um anunciado clímax, após arrastados, e às vezes desconexos, 100 minutos. Seria o equivalente cinematográfico de uma broxada, caso houvesse prévia excitação. Assim como na insinuação atrapalhada de Helena, no desinteresse do Dr. Jano ou na chatice juvenil de Amalia (María Alché é atriz ruim de doer), o que existe é uma ausência completa de suor e tesão, algo que Martel parece almejar desde o início, mas que não sabe manipular.

O espectador insône pode, por outro lado, encontrar função alternativa para o filme, que revela-se bom material soporífero. Aqueles que, ao contrário, preferem não pregar os olhos, encontrarão melhor sorte nas obras de Buñuel, Almodóvar, Bigas Luna…


Dr. Jano não resiste à chatice de Amalia. Ninguém merece.

 Escrito por Mr Eddy às 12h49
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Do fundo da caixa preta: Gumbo Millenium

24-7 SPYZ
“Gumbo Millenium”
(In-Effect Records, 1990)



Contemporâneo do Living Colour e saído do Bronx, o 24-7 Spyz surgiu na cena musical em 1989 com “Harder Than You”. O álbum apresentava uma mistura improvável de funk, metal e reggae, sendo que o peso das guitarras e a postura ‘tough guy’ se sobressaíam a todo o resto.

Um ano depois, o quarteto formado por P. Fluid (voz), Jimi Hazel (guitarra), Rick Skatore (baixo) e Anthony Johnson (bateria) lançou seu segundo disco. “Gumbo Millenium” era uma versão mais colorida de “Harder Than You”, onde os músicos deixaram o funk comer solto e, como de praxe, pontuaram as canções com riffs de metal e hardcore. Os Spyz adequadamente trocaram as jaquetas de couro e a cara amarrada por bermudas, camisetas floridas e astral irreverente. Eram os anos 90 que começavam e a atmosfera parecia saudável e propícia para deixar o azedume de lado e ir fundo na mistura de gêneros musicais a princípio incompatíveis.

Os músicos negros, aliás, têm todo o crédito por esse desapego a rótulos que veio a criar o ambiente para o surgimento de bandas que misturam qualquer estilo sem reprovação. Já no ínicio dos 80’s, o Bad Brains tocava um repertório basicamente hardcore com um habitual tema de reggae ‘emaconhado’ aqui e acolá. O mesmo acontecia com o Fishbone, combo de funk-soul que, em meados da mesma década, produzia música que só poderia ser definida como uma salada sonora. Talvez por isso, ouvir um álbum como “Gumbo Millenium” em 2005 tenha sabor nostálgico e um tanto agridoce. Não obstante a mistura ter dado caldo, essa aspiração de botar suíngue no rock pesado ou enfiar guitarras distorcidas no meio de um funk acabaram indo por água abaixo com o passar dos anos.

“Gumbo Millenium”, por conta de tanta mistura, soa hoje um pouco estranho, embora à época parecesse obra visionária. Da instrumental que abre o álbum, “John Connely’s Theory” -- título homenageava o líder da banda de thrash metal Nuclear Assault -- à terceira faixa, “Deathstyle”, o 24-7 Spyz parece estar com a cabeça no metal, porém, na magnífica “Dude U Knew” tudo vira do avesso. É suingueira de quebrar a cintura dos mais desavisados, com P. Fluid menos extravagante nos ‘falsettes’ e uma fluência musical que, rumo ao fim da canção, transforma-se numa suculenta e descarada ‘jam’.

A vinheta “Culo Posse”, de 1 minuto e meio, antecipa a ‘rapeada’ “Don’t Push Me”, e é outra com slap bass, riffs de guitarra intrincados e bateria gravada com o volume lá em cima. Mais uma vinheta pirada serve de intervalo, “Spyz on Piano”, e a banda volta com “Valdez 27 Million?”, canção que abre com uma base instrumental que parece herdada de mestres do funk como Kool & the Gang ou Chic. A seguinte é o hit do disco. Ou melhor, um ‘quase-hit’. “Don’t Break My Heart” teve video-clipe com execução modesta na MTV americana, mas suficiente para catapultar a banda a um novo estágio de popularidade, que levou os Spyz a assinarem contrato com a East-West Records, braço da ‘major’ BMG.

“Gumbo Millenium” reserva ainda outras pérolas: a engajada “We’ll Have Power” com sua levada reggae/ska, o hardcore “Racism” com refrão maluco próprio dos Spyz e “Heaven and Hell”, que soa como uma balada black pontuada por riffs de death metal (!!). O disco termina com a ingênua “We Got a Date” e a climática “Some Defenders’ Memories” – gravada com 3 canais de voz e uma célula rítmica de contrabaixo que se repete até o final.

Os Spyz continuaram na estrada após “Gumbo”, mas o line-up original desmoronou logo em seguida. P. Fluid e Anthony Johnson abandonaram o barco (ou foram chutados) e, sem eles, a banda gravou o elogiado “Strength in Numbers”, disco mais sério, com produção top, arranjos sofisticados e pretensão de emplacar meia-dúzia de hits nas FMs. O sucesso comercial não chegou e, a partir daí, os remanescentes Jimi Hazel e Rick Skatore não pararam de quebrar a cabeça para estabilizar a banda com uma única formação.

Após o amargo insucesso numa grande gravadora, o 24-7 Spyz voltou para o underground com uma perspectiva mais modesta. Reuniram a formação original para o obscuro "Temporarily Disconnected" -- que saiu apenas na Europa e que o guitarrista Jimi Hazel considera um atraso na discografia do grupo. O mundo passou a prestar menos atenção nos Spyz e, com efeito, a impressão é que o tempo deles já passou. A banda é hoje um trio que toca para pequenas platéias que cultuam as virtudes guitarrísticas de Jimi Hazel. A irreverência e a energia da juventude ficaram guardadas em discos como “Gumbo Millenium”, registros de uma época que não volta mais.




 Escrito por Mr Eddy às 21h52
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Americanos ricos e entediados

Some Kind of Monster
(Idem/2004)
Direção: Joe Berlinger & Bruce Sinofsky
Com: James Hetfield, Kirk Hammett, Lars Ulrich, Bob Rock, Phil Towle, Dave Mustaine, Jason Newsted, Robert Trujillo, etc



O documentário "Some Kind of Monster", que enfoca a concepção do último álbum do Metallica, discorre sobre diversos temas tendo como pano de fundo o circo do rock'n'roll. Tal qual a autobiografia de Gene Simmons -- fundador do bilionário KISS --, o filme apresenta várias possibilidades de leitura: uma parábola do sonho americano, uma aula de como se dar bem no show business ou um exemplo do que a fama e o poder são capazes de fazer.

Imagine uma banda de rock que contrata um psicólogo para realizar sessões de terapia em grupo porque não consegue chegar a um acordo sobre coisa alguma. A situação é tão crítica que decidir o título de uma música pode levar os músicos a um embate de egos ou uma disputa pelo poder.
Além do terapeuta pago para apaziguar os ânimos (Phil Towle), existe ainda um produtor com superpoderes (Bob Rock) e mais um número razoável de pessoas interferindo no projeto. Do empresário ao executivo da gravadora. O Metallica, mais do que uma banda, é retratado como um negócio milionário que se sobrepõe a gostos, diferenças e problemas pessoais. Os americanos sabem o que é preciso, e não medem esforços para fazer a máquina funcionar. Criar uma obra de valor artístico sob tais circustâncias é um dos temas abraçados por Joe Berlinger e Bruce Sinofsky desde o início.

"Some Kind of Monster" não teve uma temporada nos cinemas brasileiros e saiu direto para o mercado de vídeo. A versão em DVD, pelo menos, é bastante generosa. São dois discos: o primeiro contém o filme e o segundo, horas de material extra. Entre os vários momentos não aproveitados no corte final, há uma conversa em que o empresário da banda, Cliff Burnstein, aponta com autoridade para uma das dificuldades do Metallica em parir novo álbum. O 'manager' de barbas brancas à la Jerry Garcia fala sobre como o sucesso pode ser um veneno. No caso específico do Metallica, parece tarefa complicada fazer com que seus integrantes se levantem da cama numa manhã de segunda-feira com disposição para ir ao estúdio trabalhar numa canção. A falta de motivação é uma praga que, aparentemente, contamina a maior parte dos artistas ricos e famosos, que preferem os pijamas e chinelos de dedo à pressão por resultados.

Com todo esse cenário, o Metallica parece-se menos com uma banda de rock e mais com uma empresa durante boa parte de "Some Kind of Monster". A presença permanente do terapeuta apenas reforça essa sensação. Sua eficiência é louvada por todos os participantes do filme, incluindo os diretores, mas causa certo mal-estar em seqüências em que a opinião do sujeito parece saída de algum manual barato de auto-ajuda. Mas não se pode culpar Phil de não apontar o dedo para algumas feridas. Ele coloca os músicos na posição de meros mortais que precisam parar de resmungar e agir como adultos. Uma boa lição para rock stars mimados.
O produtor Bob Rock também distribui puxões de orelha nas diversas horas de gravação de "St Anger" capturadas para o filme. Bob, é bom lembrar, reinventou o Metallica no multiplatinado 'álbum preto' e é responsável direto por ter transformado a banda num fenômeno de vendas que faz sombra para qualquer grupo de rock que sobreviveu ou nasceu nos anos 90. Segundo alguns, incluindo este escriba, Bob Rock também é responsável por ter pasteurizado a música do Metallica além de qualquer nível minimamente aceitável.

Filme tem ápice dramático com o afastamento de Hetfield, que interna-se espontaneamente numa clínica para dependentes de álcool. O cantor e guitarrista fica longe da banda por cerca de 6 meses. Ulrich, Hammett e todos os envolvidos temem pelo fim do Metallica, que já andava capengando com todos os conflitos internos e a iminente aposentaria por fortuna adquirida. Nesse intervalo, Berlinger e Sinofksy parece que fabricam algum material e o resultado é que a imagem de Lars Ulrich – já arranhada por sua batalha tola e antipática com Shawn Fanning, o inventor do Napster -- continua parecendo a de um ególatra que toca bateria nas horas vagas.
Numa tentativa de lavar alguma velha roupa suja em público, ele primeiro vai a um show do Echobrain, banda de Jason Newsted, ex-baixista do Metallica. Ulrich demonstra incômodo com o sucesso, mesmo que modesto, da empreitada ("Pensei que eles fossem tocar para uns 20 bêbados"). Mais tarde, resmunga para Bob Rock em tom de melodrama que, enquanto Hetfield está internado, Newsted toca por aí com o Echobrain.

Momento mais revelador é o comentado encontro de Lars com Dave Mustaine, guitarrista original do grupo, demitido em 1982. Mustaine é muito lembrado por sua participação nos primórdios do Metallica, mas é igualmente famoso por ser o líder e fundador da popular banda Megadeth. Para quem vê de fora, o sujeito é um exemplo de volta por cima. O próprio Ulrich se surpreende ao descobrir que Mustaine não pensa bem assim.
Dave não consegue superar a idéia que sua ex-banda transformou-se numa instituição do rock e que ele está de fora. Normalmente desbocado, Mustaine larga a máscara e mantém a serenidade em seu encontro com Lars. O baterista chega à beira das lágrimas, mas, no fim, tudo se resume a ego e aceitação. Lars não deseja sucesso a Jason Newsted e se empenha para ser o líder do Metallica. Mustaine, da mesma forma, prefere se apegar a ressentimentos com 20 anos de idade a aceitar o sucesso do Megadeth.

Com um câmera e um boom mike apontados para eles o tempo todo, é de se perguntar quanto de verdade os integrantes do Metallica revelam em "Some Kind of Monster". Considerando o tipo de situação a que eles se expõem, as presenças de Berlinger e Sinofsky acabaram sendo integradas ao dia-a-dia da banda, assim como as de Bob Rock ou doutor Phil. "Eles passaram a fazer parte da mobília", afirmou James Hetfield. Mesmo assim, a continuidade das filmagens chegou a ser questionada pelo próprio vocalista, incomodado com a situação em seu retorno da reabilitação. Os extras do DVD revelam que os diretores apresentaram à banda 20 minutos do documentário editado para convencê-los que o projeto merecia ser concluído. O termo "soro da verdade" também é usado por algum membro do Metallica para definir a presença das câmeras. Ou seja, pelo menos em teoria, ninguém ali conseguiria sustentar uma imagem mentirosa durante um ano e meio ou 1.600 horas de material gravado. Nesse sentido, "Some Kind of Monster" tem pouco em comum com um reality show como "The Osbournes".

Em meio a enorme fogueira de vaidades, a figura do guitarrista Kirk Hammett parece sair ilesa. Na linguagem dos escritórios, Hammett seria seguramente descrito como um "vaselina" -- aquele sujeito que não emite opiniões e sempre escapa de uma discussão ficando estrategicamente em cima do muro. Mas Kirk parece um pouco mais esperto do que a descrição leva a crer. Ofuscado pelos egos gigantes de Hetfield e Ulrich, o guitarrista trabalha para a banda. Quando seus colegas engatam alguma discussão tola sobre a capacidade musical de um ou outro (sim, tem disso no filme), é Hammett quem interrompe a ladainha e sugere que eles voltem ao trabalho.

Embora pareça o retrato de uma banda se desfigurando, "Some Kind of Monster" funciona como veículo de promoção. O fã mais ardoroso pode ver o filme como o registro de uma vitória de pessoas que superam obstáculos, etc e tal. Presença dos músicos nas campanhas de lançamento de filme e disco reforçam essa imagem. Todos os dedos em riste, egos inflados e o status de pais de família ricos e entediados desaparecem na hora dos flashes. É a arte da desfaçatez tão cara ao show business.



 Escrito por Mr Eddy às 01h29
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Entre quatro paredes

Em um intervalo de poucos dias, assisti a três filmes que apresentam seus protagonistas confinados e vivendo diferentes tipos de pesadelo. A idéia mais original, sem dúvida, é a de "Cubo", filme já cultuado e que revi para confirmar ser tão interessante quanto se revelou à época do lançamento. Completam o grupo, duas produções mais recentes: "O Olho que Tudo Vê", de 2002, e "Jogos Mortais", um supreendente sucesso comercial nos cinemas brasileiros.

Desenvolver uma trama num espaço cênico restrito não é exatamente novidade no cinema, especialmente quando falamos de gêneros como suspense e terror. Há algo de muito ameaçador na simples idéia do isolamento, um tipo de temor que parece assombrar as mentes humanas desde a infância e que, nesse sentido, se assemelha ao medo do escuro.

Essa forma primitiva de pavor foi explorada com sucesso por alguns mestres no passado, como Roman Polanski (em pelo menos 5 ou 6 momentos de sua filmografia, mas mais notadamente em "Repulsa ao Sexo" e "O Inquilino”), George Romero (em toda a trilogia de zumbis), Stanley Kubrick (“O Iluminado”), entre outros.

Independentemente do intervalo entre as décadas ou do bom aproveitamento do tema, os três filmes abaixo comprovam que a idéia do confinamento continua sendo bastante desagradável.


***





Cubo
(Cube/1997)
Direção: Vincenzo Natali

Trancar gente em apartamentos, hotéis, cabanas ou mansões tem longo histórico no cinema, mas o claustrofóbico filme canadense "Cubo" contribuiu positivamente com uma variação do tema.

Sem como ou porque, um grupo pessoas acorda dentro de salas com paredes que parecem espelhar imagens de caleidoscópio, cada qual com uma cor predominante. As salas têm passagens na forma de pequenas portas de aço que levam a outras salas, que levam a outras salas, que levam...

Não existe observador onisciente na história e o espectador sabe tanto sobre o lugar quanto os personagens. Pouco a pouco, se desenham as inevitáveis tensões de grupo e eles descobrem que, para confirmar o absurdo da situação, estão trancafiados num gigantesco cubo de metal – espécie de labririnto hi-tech cheio de armadilhas mortais e combinações matemáticas. Colabora imensamente com a atmosfera do filme, a falta de informações sobre seu principal personagem: o cubo.
O lugar deve ter uma razão de existir e as pessoas provavelmente estão ali por algum motivo. Mas qual?! Nas elucubrações dos próprios personagens, tudo é cogitado: Seria obra de aliens? Do governo? Dos militares? Ou de algum milionário excêntrico?

Esse pesadelo kafkiano com uma pé na ficção científica, exibe uma grande virtude de seus realizadores: fazer muito com pouco. O pequeno orçamento nunca fica evidente, embora o filme, diz-se, tenha sido realizado com parcos recursos. "Cubo" teve duas seqüências caca-níqueis realizadas por outros produtores, sendo a última delas uma tentativa de explicar o que o original espertamente omitiu.


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O Olho que Tudo Vê
(My Little Eye/2002)
Direção: Marc Evans

Reality shows tornaram-se parte integrante da idéia contemporânea de entretenimento. Sentar-se no sofá da sala para apreciar as tensões que, obrigatoriamente, surgem entre um grupo de gente enclausurada, é o que grande parte dos brasileiros, europeus e americanos fazem ao voltar do trabalho.
Sabe-se lá se esse voyeurismo tem prazo para cair na obsolescência, mas fato é que, de tão incorporado ao conceito de entretenimento televisivo, o fenômeno anda parindo suas crias. Algumas em forma de paródia, como o desenho animado vagabundo "Drawn Together", outras em forma de versão cinematográfica, casos de "Contenders - Os Sobreviventes" e desse "O Olho que Tudo Vê".

Auto-explicativo, o filme do inglês Marc Evans apresenta, após breve introdução via tela de Macintosh, cinco concorrentes de um reality show realizado para a Internet. O desafio é simples: o grupo deve permanecer durante 6 meses numa casa. Se conseguir, leva 1 milhão de dólares, mas basta um dos concorrentes abandonar o jogo e todos perdem.

Isolamento é apresentado nos moldes de "O Iluminado": casa perdida nas montanhas, cercada de neve e cujo período de confinamento é de dolorosos e incontáveis dias. Um machado usado para outros fins além de rachar lenha também parece homenagear o filme de Kubrick.
O formato, no entanto, é reminiscente dos reality shows. Capturado por câmeras digitais instaladas pela casa, o filme está para o espectador o que o jogo estaria para o internauta voyeur. As imagens noturnas em verde-e-preto, popularizadas na Guerra do Golfo, acrescentam algo ao suspense. O grupo de adolescentes americanos é estereotipado, como em "Evil Dead" ou qualquer "Friday the 13th", e convive em harmonia até a rotina ser quebrada por uma série acontecimentos: caixas enviadas pelos enigmáticos produtores do programa, a sensação de que um estranho poderia estar na casa, entre outras coisas pouco agradáveis.

Leitores de Jack London ou donos de mentes férteis que vêem na vastidão gelada da América do Norte algo de assustador, farão suas próprias interpretações do terror apresentado. O maior medo, nessa visão, é o de não ser encontrado. Algo que parece bem provável no inóspito Grande Norte.





Jogos Mortais

(Saw/2004)
Direção: James Wan

A abertura tem algo de “Cubo”: dois homens trancafiados sem saber onde ou porque. Mas as semelhanças ficam por aí. “Jogos Mortais”, do iniciante James Wan, usa peças avulsas que vão desde os filmes de serial-killers-superinteligentes até clipes de nu-metal.

Jigsaw, a mente criminosa da vez, é um especialista em armar situações pavorosas com o objetivo de dar uma lição a suas vítimas: valorizar a vida. Inspirado por esse desejo, o assassino trancafia pessoas em lugares pouco agradáveis -- como o aparente banheiro de fábrica abandonada em que se passa a história principal -- e dá a elas a tarefa de exterminar uma à outra. Quem cumprir o desejo de Jigsaw, escapa com vida.

A idéia de terror pelo confinamento funciona, mas renderia mais sem os flashbacks usados para explicar o modus operandi do serial killer. O que no princípio parece uma possibilidade de teatro filmado, com cada personagem algemado de um lado do palco, ganha aos poucos o ar de thriller convencional. Apesar dos anacronismos, o bom desfecho salva a lavoura.

Certa dose de mistério também fica no ar e isso é sempre bom.

 Escrito por Mr Eddy às 13h00
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Amor só de mãe




The Heart is Deceitful Above All Things
(idem/2004)
Direção: Asia Argento
Com: Asia Argento (Sarah), Jimmy Bennet (Jeremiah aos 7 anos), Dylan e Cole Sprouse (Jeremiah aos 11), Ornella Muti (avó), Peter Fonda (avô), Marilyn Manson (Jackson), Wynona Rider (psicóloga), etc.

Segundo longa-metragem da atriz, modelo, cantora e diretora italiana Asia Argento, um talento que, em meio a todos os predicados, ainda arruma tempo para ser filha do cultuado cineasta italiano Dario Argento (de "Suspiria" e "Profondo Rosso").

"The Heart is Deceitful Above All Things", filme que ainda não tem título em português, mas que, numa tradução livre, poderia se chamar "O coração é a mais traiçoeira entre todas as coisas", é o equivalente cinematográfico de um soco no estômago. Ou melhor, de uma punhalada no coração. O filme é baseado no livro homônimo de JT Leroy, autor cult norteamericano ao redor do qual suscita todo tipo de interesse e curiosidade. O rapaz teria escrito, ou começado a escrever, esse livro aos 17 anos, numa tentativa de exorcizar minimamente seus demônios da infância. E a se julgar pela adaptação para o cinema, os demônios são muitos e bem horrorosos.

Jeremiah -- o "J" das iniciais JT -- é um menino de 7 anos que é devolvido para a mãe biológica, uma prostituta de beira de estrada (Asia Argento), sob circunstâncias nebulosas. Não fica clara a razão pela qual ele deixa seus pais adotivos, mas Sarah, sua verdadeira mãe, faz questão de impor sua versão: o casal não aguentara o temperamento difícil do garoto.

De menino aparentemente bem criado para o convívio forçado com uma mãe desconhecida, completamente despirocada, sem dinheiro ou o menor trato com crianças, Jeremiah vive o início de seu calvário. Asia interpreta Sarah como se fosse uma Courtney Love ainda mais descontrolada, e a comparação intriga se lembrarmos dos problemas da viúva de Kurt Cobain para manter a guarda da filha.

Dirigido de maneira extremamente segura, "The Heart is Deceitful Above All Things" (daqui por diante,"THIDAAT"), arrasta o espectador para o submundo sem a cobertura de baunilha presente em outros filmes que se metem a investigar a sarjeta. A fotografia, as atuações e a coragem de mostrar o que se costuma esconder no cinema, esboçam um quadro assustador: a dificuldade de educar uma criança em meio a tamanha decadência e os resultados devastadores de uma infância perdida.

Se existe algum charme marginal em ver um pirralho de 7 anos tomando álcool, drogas e vagando sem destino com uma mãe junkie e fã de punk rock, esse charme sobrevive apenas na tela e, no caso de "THIDAAT", a beleza escorre pelo bueiro em poucos minutos de filme.

Sarah estabelece uma relação de cumplicidade com Jeremiah que parece uma demonstração torta de amor, remetendo vagamente aos percalços de mãe e filho em "Glória, a Mulher", filme que tem 2 versões, sendo a última de Sidney Lumet e com Sharon Stone no papel principal. A diferença de Sarah para as outras mães independentes, é que ela é um perigo constante para a integridade física e psicológica de sua prole. Jeremiah passa fome, apanha de desconhecidos, ganha um papai novo por noite e é sujeito a humilhações das mais variadas espécies.

Perdido após episódio traumático, o garoto vai parar na casa dos avós maternos, fanáticos religiosos que representam o outro extremo da criação desregrada e liberal da mãe. É curioso ver Peter Fonda, ele próprio um ícone da contracultura e da liberdade por sua interpretação em "Easy Rider - Sem Destino", como um patriarca disciplinador. Aliás, esse papel é praticamente o inverso de sua aparição alucinada em "Um Amor e Uma 45", quando também surge fazendo o papel de pai da protagonista.

No que diz respeito ao destino de Jeremiah, é desnecessário dizer que sua vida ainda dá muitas voltas. O drama revisita o submundo, quando o espectador médio já está aliviado em ver o menino limpo e de terninho engomado. Essa passagem de Jeremiah pelo seio de uma família extremamente cristã pode causar choque de valores em certas platéias. Confesso que, por princípio, acredito que a educação religiosa nos moldes mostrados em "THIDAAT" seja, de outra forma, tão nociva e perigosa para a mente de uma criança quanto a libertinagem de Sarah. Dito isso, me custa admitir o alívio que -- suponho -- compartilhei com tantos outros espectadores ao ver Jeremiah longe da escória. É uma questão que o filme traz à tona, propositalmente ou não, mas que promete martelar em nossas cabeças por um bom tempo.

Em termos puramente estéticos, o filme de Asia Argento mostra o lado vagabundo da América como o cinema poucas vezes ousou revelar. A vida do white trash no sul norteamericano é escancarada sem a direção de arte polida de um "Monster", filme que, curiosamente, também apresentava uma prostituta de beira de estrada -- ou "lot lizard", como diz a gíria local. Espeluncas de strip tease, botecos de quinta classe, trailers, caminhoneiros, "Jesus freaks" e outros símbolos dessa América decadente saem debaixo do tapete para incomodar os olhos acostumados ao submundo padrão Hollywood. Talvez fruto do baixo orçamento ou de uma opção esperta de Asia, esse aspecto rude é a falta de verniz que evita algum tipo de glamourização na vida triste, sofrida e arruinada de Jeremiah. Pontuando tudo isso, uma trilha sonora incidental do sempre competente Sonic Youth, que dá o clima ideal de pesadelo. De fato, o filme tem algum carinho com a marginália nas citações punks sempre presentes. Seja nas pontas de Lydia Lunch e Tim Armstrong (do Rancid), nas camisetas dos Pistols ou no amor de Sarah pela banda canadense Subhumans.

Ao final da exibição, impressão que fica é de ter visto um grande filme e que deve envelhecer muito bem. Gosto amargo permanece forte durante dias e coloca "THIDAAT" como um par interessante para a obra-prima "Nó na Garganta", de Neil Jordan, sobre criança que sofre, sofre, sofre com o amor materno. Ou a falta dele. Desde já um dos melhores do ano.


Amor, estranho amor: Jeremiah e Sarah às voltas com os papéis de filho e mãe

***

ENCONTRANDO TJ LEROY

"The Heart is Deceitful Above All Things" foi exibido como parte da estratégia de lançamento do livro "Sarah", de JT Leroy, no Brasil. O autor foi anunciado para rápido bate-papo após a sessão e foi estranha a curiosidade para ver protagonista de tão triste infância em carne e osso. Pois JT surgiu escondido atrás de um visual dark anos 80, com óculos escuros enormes, chapéu preto e uma peruca loura vagabunda. Um tipo andrógino à la Boy George.

O escritor fez grande esforço para erguer a cabeça e encarar a platéia. Tremia visivelmente e gaguejava com um fiapo de voz, totalmente feminina. A seu pedido, o bate-papo foi interrompido mais cedo. Ter visto ser humano tão traumatizado causou o mesmo tipo de mal estar que, de resto, o próprio filme de Asia Argento já tinha se incumbido de produzir.

 Escrito por Mr Eddy às 00h08
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Sonhando num mundo estranho



Edukators - Os Educadores
(Die Fetten Jahre sind vorbei/ 2004)
Direção: Hans Weingartner
Com: Daniel Brühl (Jan), Julia Jentsch (Jule), Stipe Erceg (Peter), Burghart Klaußner (Hardenberg), etc


Dizem que hoje há mais liberdade no mundo que em outros tempos. A quantidade de conflitos sangrentos também é menor e certos conceitos, como a consciência ecológica e a igualdade de direitos entre os sexos, são "conquistas" relativamente novas na escala do tempo. Então por quê há tanta gente descontente no mundo? Mais especificamente: por quê na Alemanha, que viu-se livre de um muro horrendo em 1989 e onde o sistema de "welfare state" aparentemente funciona, existe insatisfação de certa parcela da juventude?

Respostas não faltam. Talvez porque qualquer verdade possa ser contada com um monte de mentiras, porque rebelar-se faz parte de "ser jovem" e porque, independentemente do mundo ao nosso redor, existem certos dilemas que são intrínsecos a essa coisa complicada chamada ser humano.

O filme de Hans Weigartner lança um olhar sincero sobre essas e outras questões ao mostrar o idealismo de três jovens alemães e todos os seus paradoxos. "Educadores" é o nome de um grupo ativista que objetiva dar uma lição na classe abastada, abrindo-lhe os olhos para o tipo de sistema que seu estilo de vida está bancando. O método do grupo consiste em invadir mansões, empilhar móveis caros e obras de arte, deixando blhetes do tipo: "Cuidado: Seus Dias de Fartura Acabaram".

Mas os "Educadores" são apenas dois. Os amigos de infância Jan e Peter, sobre os quais pouco nos é revelado. Não se sabe se eles trabalham e de onde saiu toda aquela insatisfação com o status quo. O que parece inicialmente um problema na construção dos personagens, acaba sendo resolvido pelas reviravoltas que o roteiro nos reserva.

A terceira integrante da turma é Jule, uma garota. Jule namora com Peter e tem certa cisma com seu inseparável amigo e colega de quarto Jan (interpretado pelo carismático Daniel Brühl, de "Adeus, Lênin!"). Quando Peter viaja para Barcelona, as relações entre ela e Jan se estreitam. Jule descobre, por exemplo, que aquele rapaz e seu namorado são os "Educadores", de quem ela nunca houvira falar, mas cujo idealismo e espírito de aventura lhe fascinam imediatamente. Um tipo de cumplicidade/química se estabelece entre eles. Durante papo existencial num viaduto durante a noite (cena bem charmosa, aliás), o rapaz resolve mostrar a ela como agem os "Educadores". A invasão não sai como se esperava e história dá uma guinada surpreendente. Revelar o que acontece depois seria estragar a tensão que Weingartner elaborou tão bem, especialmente na seqüência da malfadada invasão, que gera no espectador sensação de desconforto.

Jan, Jule e Peter passam por verdadeira provação na tentativa de resolver a enrascada em que se meteram. Seu idealismo é posto à prova e contestado de forma tão natural e verdadeira, que torna sua digestão ainda mais complicada. Os dois amigos e a garota mantêm certa inocência em sua maneira de ver os problemas do mundo, algo que, por outro lado, confere a eles a honestidade que falta aos mais velhos. A capacidade de sonhar sonhos impossíveis num mundo cada vez mais pragmático, imediatista e em que cada um cuida do próprio nariz, é inspiradora. Mas os "Educadores" também são expostos a incoerências no seu próprio jeito de se relacionar: o sentimento de posse, o apego a valores convencionais, além de um fio de dúvida que paira no ar sobre a validade do que eles mesmos estão fazendo (algo que Jule escancara em momento de profunda franqueza). Há elementos ali que indicam perda da inocência e esboçam um rito de passagem, fato que Weingartner respeita, mas que tenta, ele próprio como um sonhador, subverter.

É tudo muito bonito, mas também desalentador. O mundo não parece permitir mais que se sonhe desse jeito. A esquerda chegou ao poder e cada vez age mais como a direita. Essa, por sua vez, é cada vez mais reaça e conservadora. Os ricos estão mais ricos e os pobres, mais pobres. O resto da juventude que não se rebela também não tem ideais. A vida força todo mundo, mais do que nunca, a cuidar da própria carcaça, talvez num dos períodos mais individualistas da história humana. Grande parte dos movimentos libertários foi para o vinagre, cooptada pelo sistemão e transformada em bens de commodities. É uma grande sinuca de bico que parece materializada em certos diálogos e situações de "Edukators", filme que deixa, apesar de todo esse cenário, uma pontinha de sonho para quem quer sonhar.

O fato de a produção ser alemã justifica um último parágrafo. Em "Adeus, Lênin!", ótimo filme de Wolfgang Becker, uma outra Alemanha comemorava a derrocada do comunismo e a queda do muro. Personagem vivido por Daniel Brühl fazia de tudo para esconder de sua mãe doente que a URSS havia implodido, enquanto ele próprio se esbaldava com a cultura do Ocidente e as maravilhas do capitalismo.
O idealista Jan, de "Edukators", interpretado pelo mesmo Brúhl, contesta justamente o deslumbre com o capital tão festejado em "Adeus, Lênin!"...

Talvez os dois filmes, juntos, formem um painel mais abrangente de toda essa confusão existencial, política e filosófica. Na pior das hipóteses, rendem um bom programa duplo.


Eles querem implodir o mundo dos ricos.

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A quem interessar possa: o Caixa Preta bateu o recorde de inatividade em seu ano e meio de existência. Foram 3 meses sem qualquer novo post, o que, para minha surpresa, resultou em puxões de orelha de meia-dúzia de leitores. Serviu para descobrir que esse blog tem visitantes. Inclusive alguns amigos do escriba. O sumiço não se repetirá.

 Escrito por Mr Eddy às 02h13
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O poster é legal



O Chamado 2
(The Ring 2/2005)
Direção: Hideo Nakata
Com: Naomi Watts (Rachel Keller), David Dorfman (Aidan Keller), Simon Baker (Max Rourke), Sissy Spacek (Evelyn), etc

Depois da bem sucedida refilmagem do japonês “Ringu”, tanto em qualidade quanto em bilheteria, era natural que Hollywood preparasse uma continuação para “O Chamado”. O segundo episódio americanizado dessa trilogia japa ganhou vida nas mãos de Hideo Nakata, o diretor original de “Ringu” e “Ringu 2”. Surpreendentemente, o sujeito bagunçou geral a idéia que ele desenvolveu com tanta classe no Japão. “O Chamado 2” é produto descartável e tem tantos furos no roteiro e maneirismos de blockbuster que o espectador mais escolado vai se encolher na poltrona. De vergonha, não de medo.

Os problemas já aparecem no início atrapalhado do filme, que furta ao público qualquer ligação com o remake dirigido por Gore Verbinski em 2002. Parece que o estúdio concluiu que todo mundo que for assistir a “O Chamado 2” já viu o anterior, então qualquer explicação seria desperdício de celulóide. A ausência de uma introdução decente não compromete a compreensão do filme, já que todo o resto se encarrega de desfigurar a história da endiabrada Samara, mas reforça um erro fatal na má direção de Nakata: a sensação de obra feita para consumo rápido.

Vamos à história: após os incidentes sobrenaturais que vitimaram seu ex-marido, a jornalista Rachel Keller (Naomi Watts) muda-se com o filho Aidan (David Dorfman) para o Oregon em busca de sossego e menos fantasmas. Só que o VHS maldito já andava circulando pela cidade e um adolescente é morto com todas as evidências deixadas nos crimes do filme anterior. Rachel sabe da notícia na redação do jornal onde trabalha, vai à cena do crime, entra numa ambulância sem qualquer discrição e constata que o rapazola morto tem o rosto deformado como toda vítima de Samara. Seu filho – uma das crianças mais chatas de filme de terror em todos os tempos – também começa a ter sinais da presença da menina-fantasma e aí a coisa degringola para mais uma investigação, dessa vez rasa e solitária, de Rachel.

Se em “O Chamado” toda a trama ainda tinha aquele charme de lenda urbana, a fita era um mistério, suas imagens eram perturbadoras e a investigação era bem coerente, nessa continuação dirigida por Nakata, é tudo feito à qualquer nota. Até mesmo um primeiro-anista de faculdade de Cinema sabe que, em se tratando de suspense/terror, vale mais a antecipação que o susto em si. Assustar, aliás, é bem diferente de causar medo de verdade no espectador. “O Chamado 2” só consegue algum êxito em sustos, não em horror de verdade, inclusive porque essa tal antecipação inexiste. É uma cena de terror atrás da outra, a ponto de o espectador ficar esperando que o filme encontre seu eixo e aquilo tudo faça algum sentido. De novo: na refilmagem pilotada por Verbinski (e no próprio "Ringu", de Nakata) existe um interesse em desvender o que há por trás do VHS, e em “O Chamado 2” deveria, pelo menos, haver uma preocupação em mostrar porque Samara não descansa em paz. O máximo que ocorre é o esboço de uma história de espírito que ainda sofre pela falta de amor materno. E olha que isso daria farto material para uma trama com viés um tanto mais psicológico e tratamento melancólico. Nada disso foi levado em conta no filme (o infame "I'm not your fucking mommy!" em suposto clímax resume bem a esculhambação).

E se você pensa que acabou, há mais problemas: efeitos digitais aos montes e usados de forma equivocada (a seqüência dos alces na estrada poderia ser interessante se não fosse feita em Maya) e completo desinteresse em criar cenas atmosféricas (visitas ao manicômio e à antiga casa dos Morgan têm gosto de baunilha). Para arrematar, existem crateras no roteiro (dois personagens morrem e não causam efeito na trama, etc) e uma desconstrução, aparentemente acidental, da personagem Rachel Keller. Se no filme anterior ela parecia esperta, humana e obstinada na dose certa, nessa seqüência ela age em boa parte do tempo como os personagens-clichê de filmes de terror, aqueles que fazem sempre a coisa idiota na hora errada. E um dos pontos de contato com o espectador no cinema fantástico é dar a ele uma ligação com a vida real. Ou se faz isso ou é melhor partir para a abstração completa da realidade. Em “O Chamado 2” não acontece uma coisa nem outra.


O poster: melhor coisa de "O Chamado 2"

 Escrito por Mr Eddy às 04h32
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O primeiro disco a gente nunca esquece

Ele está comigo há 20 anos. Perdido no meio de outros tantos LPs e ausente há bastante tempo do meu relativamente ativo toca-discos. Mas hoje, por alguma razão alheia à minha compreensão, resolvi dar-lhe uma chance. Enquanto a agulha deslizava pelos sulcos do vinil, lembranças do ginásio e de toda uma época da minha vida saíram do baú das memórias e começaram a tomar forma.

Eu já nem lembrava, mas meu primeiro disco foi adquirido com trocados de viagens de ônibus, o famoso 5131-Praça da Sé, que me levava até o colégio. Já havia algum tempo que eu gostava de rock pesado. Era refém dos poucos programas de video-clipes, o mais saudoso deles o Som Pop, da TV Cultura, que, vez ou outra, tiravam do arquivo filminhos de bandas de hard rock e heavy metal. Nada mais fascinante para um adolescente de 13 anos, cheio de espinhas, e que adorava o som de guitarras elétricas. Mas, numa bela noite de domingo, foi o eterno programa Fantástico que fez a supresa. Anunciaram para depois do intervalo, nada menos que um "musical" do ex-vocalista do Black Sabbath. À época, o departamento de jornalismo da Vênus Platinada ainda não tinha aderido ao termo video-clipe, mas para mim não fazia diferença: a simples menção ao nome daquela banda sagrada, me fez levantar do sofá e me sentar a menos de dois metros da TV.

Não faço idéia de quem era o locutor global, mas ele anunciou "The Last in Line" como a idéia do cantor Ronnie James Dio sobre o apocalipse e terminou o texto com uma tradução livre do título: "O Fim da Linha". O estrago estava feito. Imagens de um elevador que cai até uma espécie de inferno onde há todo tipo de gente atormentada, a trilha musical recheada de guitarras pesadas e toda aquela idéia de fim dos tempos me fascinaram. Lembre-se que era 1984 e existia ali um componente de rebeldia em relação à ordem das coisas. Para as FMs brasileiras, a idéia de rock ainda estava vinculada a coisas pavorosas como o grupo Radio Taxi e da TV, bem, dessa era melhor não esperar muita coisa, salvo o oásis do Som Pop.

Passou-se quase um ano da veiculação de "The Last in Line" no Fantástico até eu perceber que poderia, sim, comprar o disco e reproduzir toda a emoção que foi ouvir aquela canção numa noite de domingo. E assim fui acumulando troco da cantina do colégio com algumas moedas que sobravam das viagens no velho 5131, que eu normalmente pagava com passe escolar, mas que, na falta deles, usava dinheiro de verdade. As economias foram fazendo um volume discreto na carteira azul-marinho da Ocean Pacific e o que faltava para adquirir o LP, provavelmente foi conquistado graças à eterna generosidade maternal.

Com o dinheirinho contado, lá fui eu, a bordo do 5131, dessa vez até o ponto final, na Praça da Sé, atrás de meu primeiro disco. A loja escolhida tinha que ser a filial da rua 7 de Abril da outrora importante rede Museu do Disco. Garimpei em cada casulo de vinil até deparar com aquela capa com tons pastéis e o título "The Last in Line". Naquele vinil estava não apenas a canção que iluminou um final de domingo qualquer, mas também, e principalmente, minha definitiva introdução aos prazeres do rock and roll.

Vinte anos depois, meu primeiro LP está girando no toca-discos. Orgulhoso, ele tenta disfarçar o efeito do tempo e deixa a agulha deslizar tranqüila, sem reproduzir qualquer chiado, talvez na esperança de que seja tocado com mais freqüência em minhas sessões nostálgicas.



 Escrito por Mr Eddy às 03h01
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Os estranhos também amam



Embriagado de Amor
(Punch-Drunk Love/2002)
Direção: Paul Thomas Anderson
Com: Adam Sandler (Barry Egan), Emily Watson (Lena Leonard), Philip Seymour Hoffman (Dean Trumbell), Luiz Guzman (Lance), etc

Comédia romântica é um termo saído da cabeça de algum marketeiro do cinema para vender aqueles filminhos com humor baunilha e romance diet. Normalmente estrelados por casais "fofos" como Meg Ryan & Tom Hanks, Julia Roberts & Richard Gere ou Hugh Grant & alguma inglesa qualquer, essas coisas também são conhecidas pelo preconceituoso rótulo "chick flick" (ou, filme de garota).

Em 2001, quando foi anunciado que um dos melhores cineastas da última geração iria meter a mão nessa cumbuca e escalar Adam Sandler como ator principal, temi que mais uma carreira escorresse pelo ralo precocemente. Depois da obra-prima "Magnolia", Hollywood deve ter exigido algo mais palatável de Paul Thomas Anderson e o cara espertamente tapeou os estúdios vendendo a idéia de uma comédia romântica de menos de 1 hora e meia de duração, com um ator panaca de protagonista.

Agora imagine que o filme em questão não traz um casal de comercial de perfume ou uma história com altíssimos níveis de açúcar. Pelo contrário: o personagem central de "Embriagado de Amor" é sócio de uma distribuidora de produtos vagabundos instalada num galpão. O cara é dominado pelas 7 irmãs (!) que o tratam como filho ou pior. Ele também parece algum daqueles nerds com quem todo mundo já estudou ou trabalhou pelo menos uma vez na vida. Retraído, solitário, cheio de tiques e com uma notável dificuldade de se relacionar com o sexo oposto. E ele ainda parece vítima de algum transtorno psicológico (um leve autismo? TOC??). Barry Egan é uma das mais convincentes composições no cinema americano em muito tempo e, à parte do inegável talento de PT Anderson em criar bons personagens, grande parte do mérito pode ser creditada à -- acreditem -- atuação excepcional de Adam Sandler.

"Embriagado de Amor" subverte a ordem da comédia romântica linha de produção desde o ínicio. Imagine que a cena de abertura mostra o personagem esquisitão descrito acima, discutindo detalhes de uma promoção com o Serviço de Atendimento ao Consumidor de uma empresa de alimentos! E imagine que, ao terminar o papo, ele vai até a calçada com um copo de café, testemunha um acidente automobilístico e vê uma van abandonar um pequeno piano na rua. A seqüência deve ter menos de 10 minutos e parece tirada de algum sonho. De fato, todo o filme é permeado por essa atmosfera.

Há vários traços recorrentes dos trabalhos anteriores de PT Anderson. O caso de amor entre o policial desajeitado e a garota junkie em "Magnolia" parece a dica para o romance torto de Egan com Lena (Emily Watson, ótima). O diretor é afeito a explorar detalhes prosaicos da vida de gente absolutamente comum. E isso não poderia ser menos verdade no caso de Barry e sua generosa admiradora. Ao invés de gente linda de morrer ou corpos se entrelaçando sob lençóis de seda, temos aqui pessoas com tremenda dificuldade de demonstrar afeição e amor, mas que precisam, mais do que nos romances de plástico, permanecerem juntas.

O diretor condensou as idéias que dariam nas 3 horas de "Magnolia" em pouco menos de 1 hora e meia, visitando temas pelos quais é vidrado. A cultura barata americana é visitada na obsessão de Barry em tirar vantagem de uma promoção que dá milhas de vôo a quem compra produtos alimentícios de determinada marca. E dá-lhe o personagem visitando supermercados e recortando cupons. Outro exemplo é o recurso do tele-sexo, utilizado também por Barry, para matar a solidão. Por comparação, em "Boogie Nights" teríamos toda a cultura da pornografia e, em "Magnolia", as palestras absurdas de auto-ajuda para machões de farol baixo. "Embriagado de Amor" é mais um filme suburbano de Anderson, ainda situado num local que lhe fascina (o vale de San Fernando em Los Angeles) e regido por códigos pouco sofisticados.

A subtrama da vez recai justamente nos vigaristas da operadora de tele-sexo, liderados por mais um dos geniais personagens de Philip Seymour Hoffman (ator-fetiche de Anderson que está em todos os seus 4 filmes, incluindo "Jogada de Risco"). Barry precisa enfrentar esses sujeitos e sua força vem da inspiração causada por Lena. Está aí outra virtude na direção: o personagem não sai da linha mesmo quando é preciso ser mais valente do que o cara que fica trancado na sala tocando um pianinho. Numa comédia sem classe, Egan, à essas alturas, se transformaria no cara corajoso, confiante e descolado, destruindo toda a construção do personagem até então. Anderson escapou dessa armadilha e não transformou seu sapo em príncipe, pelo menos não dessa maneira tão convencional.

É estimulante ver na tela a história de 2 pessoas que não se encaixam exatamente no padrão de gente popular e bem-sucedida na América, mas é na maneira como isso é feito que está o toque de mestre. Há cenas de beleza arrebatadora: Lena e Barry conversando pelo interfone do prédio, Barry voltando para visitá-la após alta do hospital com promessas tão tolas, etc. E o verniz para tudo isso vem em forma de uma envolvente aura de sonho, das estranhas e belas vinhetas com texturas coloridas, do posicionamento sensacional de câmeras (vide cena do papo com a garota do tele-sexo) e mais.

"Embriagado de Amor" tem direção extremamente segura e nós dá a certeza de estarmos à frente da obra de um verdadeiro carpinteiro do cinema. Sensível, estranha, melancólica e muito original. Se todas as comédias românticas fossem assim....



 Escrito por Mr Eddy às 04h55
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Hoje é dia de tirar aquela velha camiseta do armário

O ano que passou foi suculento em shows internacionais. Living Colour, PJ Harvey e Kraftwerk, entre outros, aterrissaram no Brasil para apresentações antológicas. E 2005 já começou bem. Depois do grande Manu Chao, que fez apresentação emocionante ao lado da banda francesa La Phaze (não tive tempo de postar nada sobre), é a vez da lendária banda de metal novaiorquina Anthrax dar o ar de sua graça por aqui.

O show que vai rolar daqui a algumas poucas horas é, obviamente, mais indicado aos nostálgicos de carteirinha. Não que a garotada vá ter problemas em curtir a sonzera da banda, pelo contrário, mas os trintões, esses sim, terão mais motivos para curtir a noitada.

Nos anos 80, o Anthrax era um dos grandes representantes da vanguarda no metal. Se até a metade daquela mesma década quem mandava no gênero eram as bandas egressas da NWOBHM (New Wave of British Heavy Metal), como Iron Maiden, Saxon e Judas Priest, a partir de 1983 a coisa começou mudar.

Os primeiros discos de Slayer e Metallica fizeram a música dos grandes bastiões do heavy metal parecer canções de ninar. E o Anthrax, à sua maneira, acabou entrando nesse clube, que foi batizado por muitos como a tríade sagrada do ainda jovem thrash metal.

A diferença do Anthrax para seus contemporâneos, era o flerte com o punk e a atitude menos sisuda. Os cinco sujeitos foram os primeiros a escancarar um visual mais ligado à turma do skate que a do rock pesado: bermudas coloridas, bonés com a aba dobrada e camisetas estampadas com personagens de quadrinhos. Os integrantes do Anthrax não faziam cara feia para fotos promocionais, não falavam do demo em suas letras ou tampouco usavam braceletes ou outros penduricalhos. A atitude despojada, até certo ponto, era refletida na música.

Além das já citadas referências punk -- que o baixista original, Dan Lilker, levou para sua banda Nuclear Assault --, o Anthrax teve a manha de gravar um EP de hip hop intitulado "I'm the Man". Ironicamente, foi a maior vendagem do grupo em sua fase áurea, que estende-se até o início dos 90's. O Anthrax teria ainda uma outra experiência com o rap, gravando a faixa "Bring the Noise" num dueto com o Public Enemy. Fazer isso em 1990-91 não era para qualquer um.

Até essa época, os novaiorquinos, liderados pelo carismático guitarrista Scott Ian, já podiam se gabar de ter pelo menos 2 clássicos em sua discografia: "Spreading the Disease", de 1985, e "Among the Living", de 1987. Esse último, especialmente, foi recebido à época com um dos trabalhos mais modernos para o gênero. E, diga-se, o disco envelheceu bem. "Among the Living" tem backing vocals meio punks, arranjos muito elaborados, riffs de guitarra excelentes e, o melhor, grandes ganchos melódicos. Canções hoje consideradas clássicas por aficionados, saíram desse disco: "Indians", "Caught in a Mosh", "Skeletons in the Closet", "NFL", etc.

"Among the Living" também vem de uma época pré-CD, então a concepção de capa e encarte tem um estilo que traz saudades. Parece que os ilustradores e fotógrafos eram melhores, as bandas tinham mais participação na elaboração do produto, enfim, parece que havia mais capricho naqueles tempos. Nostalgia pré-show? Pode ser. Mas "Among the Living", que destaco aqui como o grande momento da carreira do grupo, tinha também referências bacanas de gibis (Judge Dread especialmente) e literatura barata ("Apt Pupil", de Stephen King, na letra de "Skeletons in the Closet" -- o conto que inspirou o Anthrax também foi transformado em filme, "O Aprendiz").

Seria injusto ignorar o álbum de estréia, "Fistful of Metal", que trazia outro vocalista (Neil Turbin, cujo paradeiro me é completamente desconhecido) e baixista (Dan Lilker, que montou depois o Nuclear Assault e participou do badalado projeto S.O.D. com seus ex-colegas de banda Scott Ian e Charlie Benante). E "Spreading the Disease" também é disco obrigatório para quem quer entender o que foi o thrash metal. Desse álbum saíram pérolas como "Aftershock" e "Madhouse".

Depois desses 3 discos esfuziantes, o Anthrax apresentou trabalhos um pouco menos inspirados -- "State of Euphoria" e "Persistence of Time" --, até mudar de vocalista (saiu Joe Belladona, entrou John Bush) e ganhar novo sopro de popularidade com "The Sound of White Noise". O único hit radiofônico de toda a carreira do Anthrax saiu justamente desse álbum: a ótima "Only" (tocou muito até em rádios brasileiras, como a 89FM). Daí por diante, passei a acompanhar com mais distância a carreira da banda, mas o caras têm um lugar especial em minhas lembranças da adolescência.

Hoje, dos membros originais, continuam na banda apenas Scott Ian e o baterista Charlie Benante. O baixista Frank Bello, depois de mais de 15 anos com o grupo, teve uma saída conturbada em 2004, juntando-se ao reformado Helmet. John Bush ainda é o vocalista.

Pouca gente que acompanhou o Anthrax no auge durante os 80's, pensou que os veria ao vivo, no Brasil, em 2005. E, muito menos, que em algum momento do tempo o nome da banda fosse ser associado a seu real significado: a bactéria antraz. Nada como a distância do tempo...


Visual metalhead? Com o Anthrax não tinha dessas...


 Escrito por Mr Eddy às 20h08
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A arte de jogar conversa fora





Sobre Café e Cigarros
(Coffee and Cigarettes/2003)
Direção: Jim Jarmusch
Com: Roberto Begnini (Roberto), Cate Blanchett (Cate/Shelly), Alfred Molina (Alfred), Steve Coogan (Steve), Bill Murray (Bill Murray), Iggy Pop (Iggy), Tom Waits (Tom), Steve Buscemi (garçom), etc

Está em cartaz em poucas salas de São Paulo e Brasília, o mais recente trabalho do cultuado cineasta americano Jim Jarmusch. "Sobre Café e Cigarros" é uma colagem de 11 curtas -- ou vinhetas, como queiram -- produzidos num intervalo de quase 17 anos e que versam sobre assuntos diversos, sempre na companhia de nicotina e cafeína.

A idéia de Jarmusch é original no sentido de afirmar um ponto de vista e desencanada na forma de executá-la. Boa parte dos atores ali representam a si mesmos, em doses generosas de improviso e auto-paródia. Não há uma linha obrigatória que ligue os 11 segmentos ou que conclua qualquer situação. Assim, temos, entre outros, Roberto Begnini como um tal "Roberto" que fala inglês macarrônico, Bill Murray como ele mesmo, trabalhando secretamente de garçom, e a dupla Jack e Meg White, do White Stripes, numa conversa surreal que traz simpática homenagem aos filmes B dos anos 50 (bobina de Tesla emitindo raios num belo preto-e-branco, como, de resto, todo o filme é).

Por trás do descompromisso, existe uma espécie de elogio ao ócio e uma celebração discreta da nostalgia. Essa nostalgia parece existir no direito de gastar tempo numa mesa de coffee shop, filosofando sobre nada e exercendo o direito da "intoxicação". Em tempos de almoço à base de fast food e pressão por produtividade, qualquer bate papo acompanhado de café e cigarros parece mesmo coisa do passado. A atmosfera nostálgica ganha reforço com o aspecto politicamente incorreto do filme: na contramão do culto ao estilo de vida saudável, Jarmusch preparou diálogos que exaltam as benesses do café expresso ou o sagrado direito a um cigarrinho. Steven Wright, que contracena com Begnini na primeira vinheta, chega a dizer que deveriam fabricar picolés de café para as crianças cultuarem desde cedo esse hábito tão nobre. As situações se repetem com variações em muitos dos 11 segmentos e o contraponto é mostrado com o mesmo sarcasmo. Há garçons inconvenientes (Steve Buscemi falando do gêmeo de Elvis ou um panaca que insiste em oferecer sanduíche durante o café solitário de uma dona) e, na mais hilária situação "politicamente correta", dois velhotes com pinta de mafiosos (Joseph Rigano e Vinny Vella) que discutem sobre os males do café sem largar suas xícaras. Jarmusch, dessa maneira, ironiza com leveza os detratores do binômio café/cigarro.

E a história de misturar realidade e ficção, explorada com tanta originalidade no alucinado "Quero Ser John Malkovich", de Spike Jonze, rende pelo menos 3 momentos antológicos em "Sobre Café e Cigarros". No primeiro -- o segmento "Somewhere in California" --, Iggy Pop aguarda Tom Waits num coffee shop. O Iguana ilumina a tela com um carisma absurdo, movido a olhares curiosos e intervenções divertidíssimas. Waits improvisa suas falas e diz que, além da música, exerce também a Medicina (!). Os dois, que se declaram ex-fumantes, encontram um maço de Marlboro e fumam sem a culpa dos tabagistas, num tipo de piada que lembra a participação do próprio Jim Jarmusch em "Sem Fôlego", filme de Wayne Wang lançado há 10 anos.

A segunda seqüência soberba nessa brincadeira de botar um ator interpretando a si mesmo, é protagonizada por Cate Blanchett na vinheta "Cousins". Ela vive a Cate-celebridade e também uma prima fictícia e recalcada chamada Shelly. É um desses momentos brilhantes na arte de fingir ser outra pessoa e também ser você mesmo. De quebra, essa seqüência sozinha consegue retratar melhor temas como fama, anonimato, grana e a falta dela, do que filmes inteiros dedicados ao assunto.
Por fim, temos a vinheta "Cousins?", protagonizada por Alfred Molina e Steve Coogan (diretor de "A Festa Nunca Termina"). Evento hilariante pela expressividade de Molina, o choque cultural EUA/Inglaterra (Coogan irônico e blasé desdenha de tudo que é americano) e a auto-paródia que os dois se permitem (Molina é carente e meio "loser", Coogan é interesseiro).

"Sobre Café e Cigarros" termina com Jarmusch tirando mais um coelho da cartola: a última das 11 pequenas histórias é de profunda beleza e melancolia. Uma tentativa romântica de evocar o direito ao ócio e aos pequenos vícios. Desfecho que funciona como crítica agridoce a esse mundo tão apressado e que permite a dois senhores apenas 20 minutos para sonhar.


Iggy Pop e Tom Waits entre café e cigarros

 Escrito por Mr Eddy às 19h38
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Mensagens que dão sono



A Vila
(The Village/2004)
Direção: M. Night Shyamalan
Com: Bryce Dallas Howard (Ivy Walker), Joaquin Phoenix (Lucius Hunt), Adrien Brody (Noah Percy), William Hurt (Edward Walker), Sigourney Weaver (Alice Hunt).

Foi alardeado pelos quatro cantos que "A Vila", último filme de M. Night "o-diretor-de-O-Sexto-Sentido" Shyamalan, tem efeito bastante reduzido em quem o assiste com algum conhecimento prévio. Considerando que o filme já percorreu o circuito de cinema e chega agora às videolocadoras, é difícil que sobrem muitos espectadores indiferentes à história.
Evitando a leitura de críticas na época de sua exibição -- não me animei a ver no cinema --, consegui alugar "A Vila" sabendo o mínimo possível sobre seu conteúdo. Uma cidadezinha situada ao lado de uma floresta onde vive um povo estranho e que quase nunca aparece. Só isso. Mas o resultado de todo esse respeito com o filme ou a opção de assistí-lo sem a influência de qualquer opinião alheia, não foi muito recompensador.

Shyamalan claramente quis apresentar outra coisa que não um filme de terror e, nesse sentido, é até heróica sua tentativa de subverter o gênero. Há uma quantidade razoável de simbolismos na história e, mais ainda, uma metáfora rasgada sobre o isolamento norteamericano pós-11 de Setembro e as táticas usadas para disseminar o medo e fabricar inimigos (falar mais seria entregar a história). O problema, na prática, é que em momento algum o filme engrena e há certos diálogos escritos sob medida para aquele espectador padrão de blockbusters que precisa de tudo muuuuito explicadinho.

A tentativa de assustar via elemento desconhecido e fabricar medo apenas com o poder da sugestão, definitivamente não funciona. "A Bruxa de Blair", com recursos precários e sem revelar coisa alguma, mostra como uma floresta e seus sons podem ser aterrorizantes. Shyamalan, após mais de uma hora de filme, teve a chance de explorar essa possibilidade, mas fracassou gloriosamente. Que a intenção aqui seja outra, vá lá, mas a tensão inexiste e me parece que isso é (ou deveria ser) um problema. As parcas cenas de suspense começam em nenhum lugar e chegam a lugar nenhum e é provável que essa falta de clima seja causada pelo notável desinteresse de Shyamalan, mais ocupado com subtextos e sua já tradicional preocupação com grandes reviravoltas. A idéia aqui é lançar mão de recursos do cinema comercial para armar uma cama de gato para o espectador e deixar nele uma marca permanente, fazendo-o refletir sobre as mensagens embutidas na trama. O conceito insinua-se interessante, mas sofre pela comparação ("O Show de Truman", de outra maneira, concretiza melhor uma variação do tema) e pela forma como ele é apresentado (ritmo extremamente arrastado e uma reviravolta já esperada).

"A Vila" acaba revelando-se material soporífero. Em momento algum você se sente parte daquela comunidade e isso é condição primordial para acreditar no que vem depois. Seja o drama ou o suspense. Em "Dogville" -- a comparação é cruel --, Lars Von Trier precisa de 10 minutos, se tanto, para arrastar o espectador para dentro de um vilarejo e colocá-lo na pele da fugitiva Grace. As reuniões de anciãos de "A Vila" são pálidas representações diante do hermético conselho de moradores de "Dogville". E no filme de Von Trier não há recurso convencional para ajudar a história. Num palco com fundo infinito e casas com paredes imaginárias, o dinamarquês faz mais do que Shyamalan com os loooongos e cansativos diálogos de sua aldeia de verdade. O elenco de "Dogville" também injeta vida nos personagens -- Nicole Kidman, Philip Baker Hall e Ben Gazzarra geniais --, algo que falta em "A Vila". William Hurt, muito bom como o chefe do vilarejo, e Adrien Brody, perfeito como o doente mental que desequilibra a história, contribuem para uma sensação de familiaridade com a cidadezinha, mas o resto do elenco não tem liberdade ou inspiração para tal. Sigourney Weaver está apagadíssima num papel secundário e Joaquin Phoenix continua tão inexpressivo quanto em "Sinais", do mesmo diretor. A atriz principal, Bryce Dallas Howard, tem atuação padrão.

Não fosse "A Vila" experiência tão sonolenta, seria o caso de rever o filme e dar mais atenção ao que está nas entrelinhas. Deixo a tarefa para outros interessados...


Nem Adrien Brody salva a vila de Shyamalan

 Escrito por Mr Eddy às 13h22
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